
No coração do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), que acontecerá em Juazeiro (BA), a cozinha será mais do que um espaço de preparo de alimentos. Ela será ponto de encontro, espaço de experimentação viva de saberes e símbolo da luta contra a fome. Ao longo do evento, serão servidos mais de duas mil refeições em três diferentes períodos diariamente, em um processo que já mobiliza movimentos sociais, organizações parceiras, mestras da cultura alimentar e políticas públicas que fortalecem a agroecologia no país.
“Desde a articulação e mobilização dos produtos, passando pela compra institucional, pela logística de recebimento e pela infraestrutura necessária, até chegar ao funcionamento da equipe responsável por ofertar mais de dois mil pratos em todas as refeições durante o congresso, todo esse processo tem sido muito importante. Para nós, do Movimento dos Pequenos Agricultores, com certeza sairemos desse trabalho coletivo com muito mais acúmulo, mais capacidade e mais experiência para continuar garantindo, em grandes eventos, a oferta de alimentos com qualidade”, afirma Leomárcio Silva, da Coordenação do Coletivo Nacional de Soberania e Abastecimento do MPA.
Essa engrenagem coletiva se sustentará em políticas públicas estratégicas, como o apoio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Juntas, essas instituições viabilizarão a compra institucional e o abastecimento da cozinha, fortalecendo o combate à fome e a promoção da agroecologia.
Para Sílvio Porto, diretor de Política Agrícola e Informações da Conab, a iniciativa demonstra como a política pública pode potencializar processos coletivos: “Ao lado do MDS, disponibilizamos R$ 500 mil para a coordenação do Congresso Brasileiro de Agroecologia, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Esses recursos estão permitindo uma articulação que tem a Central da Caatinga como organização satélite, responsável por identificar quais organizações e quais produtos poderão ser fornecidos. O PAA vai assegurar a compra de cerca de 18 toneladas de alimentos, que serão fornecidos ao longo do CBA”, explica.
Sílvio ressalta ainda o simbolismo de realizar o encontro no semiárido nordestino. “Mais especial ainda é o CBA acontecer em Juazeiro, no Semiárido. Isso mostra que essa região é um espaço de vida e diversidade, em contraponto a uma visão distorcida, muitas vezes sudestina, de que o Semiárido seria apenas seca e escassez. No PAA, já chegamos a comprar cerca de 230 tipos diferentes de alimentos, o que revela a riqueza da agrobiodiversidade manejada pelas famílias sertanejas em sua convivência com o Semiárido. Essa experiência será mostrada para o Brasil inteiro”, completa.
A força desse processo está também na construção coletiva do cardápio e da logística, como explica Mabilly Gonçalves, representante da Rede de Agroecologia Povos da Mata: “No início, tínhamos representantes do MPA e do MST. A partir de uma oficina, começamos a pensar como se daria essa construção coletiva para alimentar em média 2.200 pessoas. Foi um trabalho muito participativo. Nas nossas reuniões virtuais, foram 23 ao todo, conseguimos avançar em várias questões do cardápio. A primeira tarefa foi mapear a produção local na Bahia. Encontramos legumes, verduras, frutas, café e arroz. O arroz vem de Sergipe, mas também do MPA. Assim, fomos desenhando o cardápio em cima dessa produção local. Do arroz ao feijão, passando pelo café, tudo vem desses movimentos e da agricultura familiar. Esse processo foi evoluindo para a sistematização da logística e vimos a necessidade de um encontro presencial. Assim, no fim de semana de 13 e 14 de setembro, realizamos, em Juazeiro, a primeira oficina da Comissão de Alimentação, reunindo 20 pessoas da comissão. Foi um processo muito bonito de arranjos, acordos e construção coletiva”, relata.

O espaço, no entanto, não se limitará à logística e à oferta de refeições. A chamada “cozinha das tradições” promoverá encontros raros entre mestras e mestres da cultura alimentar, guardiões de histórias e sabores que atravessam gerações.
“É muito precioso viver experiências como essa da cozinha das tradições, que promove o encontro de mestras e mestres da cultura alimentar, pessoas que são guardiãs de tantos saberes e de tantos sabores. Elas produzem comida de verdade: comida que conta histórias de ancestralidade, de resistência, mas também de afeto e de cuidado, um cuidado comunitário”, destaca Mariana Sobral, diretora executiva da Associação Kapiwara.
Para Reginaldo Martins, diretor estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o esforço coletivo que marca a cozinha do CBA aponta para algo maior. “Que possa ser um reflexo para o Brasil e para o mundo inteiro: entender que a agroecologia é o caminho para termos um ambiente melhor, um mundo melhor, tanto para a natureza quanto para os seres humanos. Que essa coletividade se consolide nas nossas organizações, porque são diversas organizações que estão juntas nesse processo. Estamos unidos nessa caminhada”, afirma.
Um encontro de saberes e resistências
Criado em 2003, o CBA é um evento bianual que reúne instituições de ensino, pesquisa, movimentos sociais e comunidades tradicionais para fortalecer a agroecologia como ciência, prática e movimento. Em 2025, com o lema “Agroecologia, Convivência com os Territórios Brasileiros e Justiça Climática”, o congresso acontecerá entre os dias 15 e 18 de outubro, no campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro.
Mais do que um congresso, o CBA vem se consolidando como espaço de diálogo entre saberes populares e acadêmicos, uma “ciência dos lugares”, na expressão do filósofo Silvio Almeida. Nesse contexto, a cozinha deverá ocupar papel central: conectará o território, reforçará a soberania alimentar e mostrará que, quando se trata de combater a fome e enfrentar as mudanças climáticas, é a união entre tradição, ciência e política pública que abrirá caminho para o futuro.
Por Andressa Carolina Lira